Projeto da Oficina de Teatro do Estágio Supervisonado 3 do curso de Licenciatura em Teatro da UnB
Professor/Estagiário: Neivaldo
SONOPLASTIA: música terror e suspense
Um tribunal no inferno, mais precisamente no purgatório. Na cena há uma cadeira com formato de um trono. Dos lados existem 2 portas: uma para as pessoas que chegam e nela está escrito “Well come to the hell!”; na outra porta, “Volte Sempre!”, para os que partem. No trono está sentado o Diabo cabisbaixo e reflexivo como na escultura de o “Pensador”.
Diabo: “Ser ou ser: eis a questão.” (dá um suspiro e reclama quase que chorando) Que marasmo! Não tem uma alma penada onde eu possa executar as minhas maldades...
SNOPLASTIA: som de grilo
Faz-se um silencio de uns cinco segundos. Aparece então um barulho de grilo. Logo em seguida ouvem-se trovões e uma ventania muito forte.
SONOPLASTIA: som de trovão
Diabo: Que diabo é isso? Ora, o diabo sou eu mesmo!
Deus: Calma meu irmão! Por que te assustas? O que te afliges?
Diabo: Só podia ser você mesmo! Aqui já está chato prá burro e agora tu vens me perturbar? Até tu, God?
Deus: Relaxa Cramunhão! Desabafa aqui para o papai!
Diabo: O negocio é seguinte: A coisa aqui anda tão ruim, que eu já tive que demitir mais da metade dos meus capetinhas. Faz tempo que eu não faço um churrasquinho de gente, os últimos foram o Hitler e o Sadam. Você bem que poderia mandar para mim o Bush e o Kadafi.
Deus: Eu tive uma idéia: tenho que dar uma reformulada em algumas leis, elas já estão ultrapassadas e a galera ta deitando e rolando. (Voz forte) Vou atualizar os sete pecados capitais (som de trovões e ventania)
SONOPLASTIA: trovões
Diabo: Pode crer meu irmão!
Deus: Vai ser uma ótima oportunidade, pois aqui no paraíso está repleto de almas com boas intenções. (tom irônico) Entendeu: boas intenções!
Diabo: Entendi: aqui também havia muitas almas com boas intenções!
Deus: Como as coisas andam ruins por aí vou fazer uma promoção. Segura lá!
Diabo: Pode mandar!
SONOPLASTIA: batida de carro
Barulho de freada seguida de uma suposta batida de carro. Faz-se novamente silêncio. De repente ouve-se uma descarga de banheiro e começam a aparecer pessoas pela porta, onde está escrito “Well come to the hell.” As pessoas começam a andar pelo salão tentando entender o que está acontecendo.
SONOPLASTIA: descarga de banheiro
Diabo: Valeu pai! Valeu!
Deus: Veja lá o que você vai aprontar! Bem, agora vou dar uma descansada, pois ninguém é de ferro! Hasta La vista baby, bye bye, so long, adios, inté... (motocicleta acelerando).
SONOPLASTIA: motor de motocicleta
O diabo observa a movimentação das pessoas, contemplando e se deleitando com aquela situação. Começa então um burburinho e aos poucos o volume da conversa vai aumentando até chegar ao ponto que o Diabo se pronuncia de forma agressiva.
Diabo: Stop, stop, stop, stop. Silent, please!
De imediato o grupo se divide em dois e formam duas fileiras em diagonal ao Diabo.
Gula Gordo: - (A gula é uma pessoa obesa. Ela está trajando um uniforme de motorista típico com um chapeuzinho preto, uma camisa de mangas curtas, calças pretas e sapatos pretos. Em uma das mãos está um volante e na outra uma espécie de sanduíche.) – Ô, patrão: o que está acontecendo? Que lugar é esse? E que cheiro de chifre queimado é esse? (Diabo coloca a mão na cabeça)
Diabo: Calma lá! Uma pergunta por vez. O lance é o seguinte: vocês morreram e estão no inferno! E quanto ao cheiro de chifre queimado você está equivocado. Isso é enxofre: o enxofre é um elemento químico de símbolo S, número atômico 16 e de massa atômica 32. Entendeu?
Gula Gordo: É, entendi, mas não compreendi. É porque nesse dia eu não fui para o colégio. Mas Chefia, por que eu vim parar aqui?
Diabo: Muito simples: devido a essa sua gula que não tem fim, você acabou batendo o ônibus quando deixou cair o seu sanduichinho no chão. Você se abaixou para pegá-lo e quando retornou foi de encontro a um muro de puro concreto e ferro.
As pessoas começam novamente o burburinho, porém de forma mais acentuada. Várias perguntas e exclamações são feitas ao mesmo tempo, por exemplo: Como assim? Por que eu? Isso não pode estar acontecendo! Estamos no inferno? Etc.
Diabo: (em tom intimidador) Silencio! Se vocês estão aqui é porque mereceram! Ou agora todo mundo é santo? Você (aponta para um homem de pijama, pantufa e gorro)!
Preguiça: (abre um longo bocejo e coça as nádegas) Eu? Eu não fiz nada!
Diabo: Por isso mesmo! Você não fez nada, não faz nada e com certeza não fará nada! Vive se escorando em tudo e em todos. Tem preguiça para tudo: pra comer, tomar banho, trabalhar, estudar. É um peso morto.
Preguiça: (aproxima-se do diabo a passos lentos e bocejando) Não bem assim, não. Eu gosto de fazer alguma coisa sim.
Diabo: O quê?
Preguiça: (deitando-se do chão) Dormir! (começa a roncar)
SONOPLASTIA: música para dormir
Diabo: Levante-se infeliz e volte para o seu lugar!
Preguiça: Tá bom, tá bom. Já estou indo. (boceja novamente)
SONOPLASTIA: música pantera cor-de-rosa
Luxúria: (mulher sensual em um vestido vermelho e sapatos salto alto de 8 cm. Sua maquiagem é pesada. Dirige-se ao diabo com um andar insinuante) Olá, bonitão!
Diabo: (voz calma) Olá, doçura! Que desejas?
Luxuria: (coloca a mão sob o queixo do Diabo) Você, meu diabinho!
Diabo: Eu sou todinho seu! Minha flor. Minha diabinha. Minha, minha...(recompõem-se) Pode parar, pode parar! Você está querendo é me seduzir, não é? (tom afeminado) Mas comigo não, viu! (tom másculo) Quer dizer: Comigo não, jacaré!
Luxuria: Bem que eu desconfiava. (vira-se de costas e encaminha-se para os eu lugar de origem)
Diabo: Você é outra que merece estar aqui. Sempre procurando os prazeres da carne. Só pensa naquilo!
Ira: (esbravejando as pálpebras vermelhas vem com testa franzidas, com uma vassoura na mão) Pensa em quê? Pensa em quê?
Diabo: Boa tarde pra você também! Muito prazer.
Ira: Prazer em quê? Prazer em ver essa sua cara feia?
Diabo: Você sempre reclamando de tudo, hein? Nunca perde essa mania.
Ira: Não é da sua conta! E quer saber, eu não agüento mais essa vida: eu fui comprar uma mísera vassoura e me cobraram um absurdo. Entro no ônibus a passagem é o olho da cara, e agora eu estou aqui nesse lugar fedorento olhando pra você.
Diabo: Se você está aqui é porque merece, ou será que não? (voz grossa)
Ira: Claro que não!
Diabo: Ah é! Veja só: você vive reclamando das coisas. Certo dia espancou o seu marido só porque ele chegou um pouco mais tarde em casa - o ônibus havia quebrado -; o coitado ficou 10 dias de cama no hospital; derramou café quente na sua sogra só porque ela te deu bom dia; seus filhos foram morar na casa da tia, porque apanhavam com cabo de vassoura todos os dias, pela manhã, almoço, e até na hora de dormirem. E você ainda vem dizer que não merece estar aqui?
Ira: (com um semblante ainda mais raivoso, responde mansamente) Não!
Diabo: Ah! Faça-me o favor!
Logo após vem à avareza (um homem típico do interior de Minas. Chapéu de palha, bota de couro, um matinho no canto da boca e um queijo nas mãos)
Avareza: Oia aqui, vossa chifrudesa! Eu acho que eu tamem num divia de tá aqui. Será qui a vossa buniteza num pudia mi liberar, é que eu tenho que pegar o trem e acho que to meio atrasado. E o senhor sabe que mineiro nunca perde o trem.
Diabo: Para começo de conversa, se você está aqui também, é claro que também mereceu. Em segundo lugar, além de perder o trem você também acabou de perder a vida.
Avareza: Nossa Senhora da Picirica! Num pode ser. Bem que eu podia ter ido a pé e economizado uns trocadinho ao invés de ter pegado aquele ônibus, afinal a cidade fica só 30 quilômetros de distancia do meu sítio.
Diabo: Bem feito, seu murrinha!
Avareza: Seu capeta, eu tenho uma proposta a lhe oferecer.
Diabo: Uma proposta? Huumm! Prossiga! O que você tem a me oferecer?
Avareza: Oia sô! Eu tenho cá comigo um dinheirinho. Era para eu comprar mais um queijinho.
Diabo: E de quanto seria essa quantia?
Avareza: eu tenho nove centavos e meio.
Diabo: Nove centavos e meio? O que quê é isso? Você está me zoando, seu muquirana?
Avareza: Não, Seu Chifronésio! De jeito nenhum.
Diabo: Chega de embromação! Vá para o seu lugar, Seu Mão-de-vaca! (faz uma pausa) E vocês dois aí? (aponta para um casal. O homem está trajando um terno preto importado e sapatos - estilo bico fino - bem engraxados. A mulher está com um vestido muito elegante, um tanto quanto exagerado e muitas jóias)
Vaidosa: A sua pessoa por acaso tem hora marcada conosco?
Diabo: Eu não! Mas com certeza vocês têm comigo.
Vaidoso: O senhor é algum gerente de banco?
Diabo: Não!
Vaidosa: Quer vender algum carro importado?
Diabo: Também não!
Vaidoso: Já sei! Deve ser um representante da ONU querendo alguns bilhões, do nosso rico dinheiro, para poder dar aos pobres. Que desperdício!
Vaidosa: É isso mesmo, meu querido! Que pessoal sem classe. (tom de ironia)
Vaidoso: Mas o que realmente estamos fazendo aqui?
Diabo: Isso que dá serem pessoas tão esnobes. Pessoas sem escrúpulos como vocês sempre acabam vindo fazer uma visitinha aqui na casa do Cramunhão.
Vaidosa: E nessa casa não se oferece nenhum aperitivo, nenhuma porção de caviar?
Diabo: Vocês são muito exibidos mesmo! Só ta faltando pendurarem uma melancia no pescoço.
Vaidoso: Está vendo meu bem. Deveríamos ter chamado um táxi ao invés de termos pego aquela lata velha. Tudo porque nossa limusine estragou. Nossa única escolha foi entrar na porcaria deste ônibus repleto de pobretões.
Vaidosa: É mesmo, meu fofuxo! Até quebrei a minha unha nessa confusão.
Vaidoso: Deixa-me ver, minha Flor. (pega a mão da Vaidosa e observa a unha quebrada) Que lástima, minha querida!
Vaidosa: Oh! Onde andarás a minha manicure, a Josefina. E agora? Não tenho como concertá-la. (em tom de prepotência) Meu bem! Quero a Josefina aqui e agora!
Diabo: Pode parar, pode parar! Já estou de saco cheio de vocês dois. Chega de perturbação. Quantas coisas fúteis! Só por que eram ricos pensavam que podem mais que os outros. Vocês são tão hipócritas, gastam dinheiro apenas por vaidade, só pensam em si mesmos.
SONOPLASTIA: música eletrônica
SONOPLASTIA: música “Macho Man”
Inveja: (pegando no vestido da Vaidosa) Noooooooossa! Mulher, mais que vestido lindo! Eu queria tanto um desse. (Vaidosa retira a sua mão) Que colar maravilhoso! (pega no colar) E esses brincos! (pega nos brincos) São tão reluzentes! Amiga, você não quer dá-los para mim? E esses sapatos deslumbrantes! (coloca o pé ao lado da Vaidosa) Olha só! Serve certinho no meu pé, até parece que foram feitos para mim.
Vaidosa: (afasta-se como se estivesse com nojo) Que gentalia! Só podia ser pobre.
Inveja: (Indo de encontro ao Diabo) E você! Que belo par de chifres! Mas esse aí eu não quero ter não.
Diabo: Sai olho gordo. Sempre de olho no que é dos outros.
Inveja: Não seja indelicado. (passa a mão no trono do Diabo) Nossa! Que trono mais elegante! Ele ficaria tão bonito na sala da minha casa.
Diabo: Não estou dizendo. Vive cobiçando as coisas alheias. Sua invejosa, você também merece estar aqui, aliás, todos vocês merecem estar aqui. Viveram sempre infligindo as regras do cara lá de cima.
Você! SONOPLASTIA: Melô do você, você, você, você, (aponta para a Gula) Tem o olho maior do que a barriga. Seu guloso.
Você! SONOPLASTIA: Melô do você, você, você, você (aponta para a preguiça) Não passa de um vegetal. Seu preguiçoso. Você! (aponta par a luxuria) Sempre a procura dos prazeres carnais, sempre possuída pela luxúria.
Você! SONOPLASTIA: Melô do você, você, você, você (aponta para a irá) O ódio te corroí, sempre atraída pela ira.
Você! SONOPLASTIA: Melô do você, você, você, você (aponta para o avarento) Sempre a procura do lucro. Venderia a própria mãe ao diabo para ter alguma vantagem financeira. Seu avarento.
Vocês dois! SONOPLASTIA: Melô do você, você, você, você (aponta para o casal de vaidosos) Sempre querendo sempre ser melhores do que todo mundo. Ostentam a riqueza e o desperdício. Cambada de vaidosos.
Você! SONOPLASTIA: Melô do você, você, você, você (aponta para a inveja) Sempre cobiçando o que é dos outros. Sua invejosa. (aponta para todos) Agora todos vocês irão arder no fogo do inferno.
SONOPLASTIA: gargalha sombria.
SONOPLASTIA: descarga de banheiro
Ouve-se a descarga novamente. Entra um carteiro apitando com um apito e encaminha-se até o Diabo.
Carteiro: Telegrama para o Senhor Diabo Cramunhão Capiroto Bicho de chifre Chifrudo do Quinto dos Infernos, residente a Rua Cão Bravo, número 666, esquina com a Praça do Tormento.
Diabo: Sou eu mesmo. Do que se trata?
Carteiro: E eu sei lá! O telegrama é para você e não para mim. E tem mais: abrir correspondência de terceiros e crime e dá cadeia.
Diabo: Pois me dê logo isso para cá!
Carteiro: Calma lá, apressadinho! Primeiro você tem que mostrar a sua identificação.
Diabo: Que negocio de identificação! Sou eu mesmo e acabou! Ou você tá querendo pegar um bronzeado e ficar bem tostadinho?
Carteiro: Tá bom, ta bom! Tome! Agora eu vou indo porque ainda tenho muitas outras correspondências para entregar. Tchau. (sai pela porta de volte sempre)
Diabo: Deixa-me ver quem mandou essa porcaria. É de Deus! Vejamos.
“Querido diabo, pensei melhor sobre o nosso acordo e resolvi tomar outra decisão. Estive pensando e a minha reputação cairia por terra se eu não desse outra chance para essas pessoas. A minha índole é repleta de bondade e misericórdia e reconheço nessas pobres pessoas que se eu as condenar estarei também me condenando. Por esse motivo determino que mande imediatamente todos que ai chegaram de volta para a superfície e retomem as suas vidas normais. Porém há uma condição: que elas reflitam sobre o que fizeram até agora e tente recuperar o tempo perdido, caso contrário irão de fato para o inferno.
Tenho certeza que serás compreensivo e de antemão lhe agradeço!
Um abraço!
Deus.
Diabo: Eu não acredito! Tanta alma novinha em folha e eu terei que devolver todas! Pôxa! Quando será o dia da minha sorte? Andem! Vão logo, seus lazarentos, sortudos.
SONOPLASTIA: música festa junina
Todos comemoram e começam a passar pela porta de Volte Sempre.
Diabo: É! Cá estou eu de novo sozinho. Mas nem tudo são flores! Existem também os espinhos! (Evoca em voz alta) Hitler! Sadam! (os dois se aproximam) He. Meus camaradas! Sobrou de novo para vocês. (diabo pega o tridente e começa a espetar os dois, ambos gritam de dores. Diabo solta gargalhadas. Fecham-se as cortinas).
SONOPLASTIA: gargalhada sombria e música de Zeca Baleiro – Heavy Metal do Senhor.
Fim.
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